Já parou para reparar em como grande parte da arquitetura brasileira é formada por influências internacionais? O cobogó, por exemplo, é uma versão do árabe muxarabi. O mesmo acontece com os Adinkras: símbolos da cultura dos Ashanti, eles aparecem decorando diversos itens da casa — e provavelmente estão no seu lar.
Neste post, vamos entender qual a importância desses símbolos que, num primeiro momento, parecem apenas grafismos, mas que carregam um significado profundo. Conheça, a seguir, os Adinkras.
O que são Adinkras?

A simbologia Adinkra é um conjunto de ideogramas pertencente ao povo Ashanti, grupo étnico Akan presente principalmente em Gana, Togo e Costa do Marfim.
Esses símbolos representam valores filosóficos, espirituais e sociais transmitidos visualmente e mantêm uma identidade cultural específica, embora linguagens simbólicas semelhantes tenham surgido em diferentes civilizações ao longo da história.
Nos últimos anos, algumas interpretações passaram a associar desenhos presentes em antigos portões e grades de ferro brasileiros aos símbolos Adinkra trazidos durante o período escravocrata.
No entanto, pesquisadores apontam que ainda não há comprovação documental definitiva dessa relação.
Estudos indicam aproximações formais, mas destacam que volutas e formas espirais aparecem em diferentes tradições artísticas, além de serem recorrentes em catálogos europeus de serralheria dos séculos XIX e XX.
Qual o significado de Adinkra?
A palavra “Adinkra” vem do kwi, idioma Ashanti, e pode ser traduzida como “adeus à alma” ou “despedida”. Originalmente, esses símbolos eram usados em rituais funerários para expressar sentimentos, códigos de conduta, conselhos e reflexões sobre a vida e a morte.
Com o tempo, deslocaram-se desse contexto mais triste e tornaram-se estampas de roupas, joias, peças decorativas e fachadas de construções.
Na época do império Ashanti, os Adinkras eram utilizados em tecidos que a realeza usava em cerimônias importantes.
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Símbolos e história
O uso de símbolos para descrever uma situação tem origem muito anterior à escrita que conhecemos. Acredita-se, por exemplo, que os alfabetos surgiram há mais ou menos 6 mil anos, enquanto os sistemas de escrita por ideogramas existem há mais de 30 mil.
Os pictogramas são os “avós” dos ideogramas. Na pré-história, nossos antepassados já “contavam” sobre seus rituais por meio de desenhos nas paredes.
Os símbolos Adinkra, porém, são mais recentes. Não há consenso sobre sua criação: pesquisadores divergem sobre sua criação pelo povo Akan Abrons de Gyaman entre os séculos XI e XV. Os Gyaman utilizavam para ornamentar cerâmicas, tecidos reais e cerimoniais.
No século XIX, quando os Gyaman foram derrotados e seu rei, Nana Kofi Adinkra, morto, o império Ashanti (1670–1957) adotou e desenvolveu esses símbolos. A cada um deles, associou um provérbio Akan. O nome “Adinkra”, portanto, vem tanto do antigo rei Gyaman quanto do seu uso em funerais.
Os Ashanti, porém, ampliaram seu uso e os estamparam na arquitetura, objetos rituais, pesos de ouro (abrammuo), esculturas e ornamentos.
Os tecidos com símbolos Adinkra ainda são usados atualmente. Para fabricá-los, utilizam-se carimbos de cabaça mergulhados em tinta derivada das fibras vermelhas internas da árvore Bridelia ferruginea.
Adinkras mais conhecidos
Conheça o significado de alguns dos símbolos mais importantes da cultura Ashanti:
Gye Nyame
Símbolo Adinkra mais conhecido no continente africano, Gye Nyame significa “exceto Deus” em kwi. É um símbolo que mostra a onipresença e supremacia de Deus, segundo a fé Ashanti. Assim como no cristianismo, a fé Akan tem uma concepção de Deus (Nyame) como onipotente, onipresente e onisciente.
Krapa ou Mmusuyidee
O símbolo semelhante a uma cruz pátea francesa aparece duas vezes, com os nomes de Krapa (“boa alma”) e Mmusuyidee (“aquele que remove o azar”). Significa boa sorte e santidade.
Aya
É o símbolo Adinkra que significa “samambaia”. Sua ideia é simbolizar força, perseverança e superação, já que a planta consegue se desenvolver nos lugares mais adversos.
Akoma


Akoma significa “coração” e é um símbolo de amor, boa vontade, paciência, fidelidade, carinho, resistência e constância.
Embora o formato de coração seja um símbolo universal para o amor, aqui ele representa ousadia, paciência e tolerância. Em Akan, Nya akoma significa “tenha coragem”.
Adinkras na arquitetura
Como visto, os símbolos Adinkra eram utilizados em diversas mídias — cerâmicas, tecidos, pesos de ouro e mobília, por exemplo. Porém, também fazem parte da arquitetura africana, especificamente de Gana e Costa do Marfim.
Santuários Ashanti eram considerados sagrados. Boa parte de sua fachada de cerâmica têm grandes padrões Adinkra esculpidos. Aqui, a intenção era transmitir a sabedoria ancestral.
No Brasil


Quando os africanos foram trazidos ao Brasil durante a escravidão, eram subjugados e tratados como seres sem conhecimento. Mas o Continente Mãe é terra de conhecimento milenar.
Os escravizados não deixaram sua música, religião e conhecimento para trás. Muitos dos seus símbolos foram incorporados e ajudaram a formar o que hoje conhecemos como cultura brasileira.
O que muitas vezes não reparamos é que a influência africana também aparece na arquitetura. O interessante é que, além da técnica incorporada, os povos trouxeram também símbolos e seus significados.
Acredita-se que, entre as pessoas escravizadas, havia muitos ferreiros com conhecimento avançado em metalurgia e um bom repertório simbólico. Enquanto construíram casas, utilizaram os Adinkras e outros símbolos para perpetuar, mesmo que em silêncio, a cultura africana.
No vídeo abaixo, você verá diversos exemplos de Adinkras utilizados na arquitetura brasileira:
Sankofa
Você pode não saber, mas sua casa ou a de seu vizinho tem um portão com o sankofa. Ao contrário do que parece, esse símbolo não é um coração, mas um pássaro estilizado, que olha para trás à procura de um ovo.
Sankofa significa “volte e pegue-o”, ou seja, aprender com o passado para ressignificar o presente e construir o futuro.




Sua tradução literal vem do provérbio Akan “Se wo were fi na wosan kofa a yenkyiri”, que significa “Não é tabu voltar para buscar o que você esqueceu (ou deixou para trás)”. É o símbolo adinkra mais conhecido fora da África.
Dwennimmen


Outro símbolo comum nos portões brasileiros é o Dweninmmen, que significa “os chifres de um carneiro”. Representa força (mental, física e espiritual), humildade, sabedoria e aprendizado.
Os chifres são fortes, ferozes, podem ser intimidantes e representam uma defesa. Dweninmmen é um símbolo de força com humildade. Ao mesmo tempo, as ovelhas são humildes e fáceis de guiar. Podem ser conduzidas até o alimento e afastadas dele conforme a vontade do pastor, ao contrário das cabras.
Conhecer os Adinkras é entender história, espiritualidade e ancestralidade. Saindo da África e indo para a Europa, conheça a obra de Filippo Brunelleschi, que desafiou a razão e tornou-se imortal por meio de seu trabalho arquitetônico.







