os saberes artesanais na arquitetura moderna

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Um dos nomes mais importantes da arquitetura do século 20, Carlo Scarpa foi um arquiteto e designer italiano que pensava com as mãos e projetava com os sentidos.

Com uma abordagem instintiva aos materiais, ele aproximava técnicas artesanais tradicionais de processos modernos de fabricação.

Assim, em vez de impor rupturas, Scarpa reinventava museus e espaços públicos a partir do diálogo atento com o que já existia.

Nas mãos dele, ideias simples, exploradas de forma intensa e precisa, tornavam-se arquitetura carregada de tempo e significado.

Nesse gesto, convivem a herança veneziana e a sensibilidade japonesa, unidas pelo rigor do detalhe e pela poética do fazer.

Saiba mais sobre a vida e a obra de Carlo Scarpa a seguir!

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A trajetória singular de Carlo Scarpa

Fotografia em preto e branco de rosto de Carlo Scarpa
Carlo Scarpa deixou um grande legado para a linguagem arquitetônica (Foto: Francalb89)

Carlo Scarpa nasceu em 2 de junho de 1906, em Veneza, cidade que moldaria o seu olhar atento à matéria, ao tempo e à história. Ainda criança, mudou-se com a família para Vicenza, onde viveu até os 13 anos.

Com a morte da mãe, retornou a Veneza e ingressou na Academia de Belas Artes, formando-se em 1926 e aprofundando os seus estudos sob a orientação de Francesco Rinaldo, de quem se tornaria assistente e, mais tarde, sobrinho por casamento, ao unir-se a Nini Lazzari.

A carreira acadêmica de Scarpa se consolidou no Instituto Universitário de Arquitetura de Veneza (IUAV), onde lecionou por décadas e construiu a reputação de mestre rigoroso, respeitado por alunos, colegas e clientes.

No entanto, recusou-se a prestar o exame profissional exigido pelo governo italiano no pós-guerra, o que o impedia legalmente de exercer a profissão de arquiteto. Para contornar essa limitação, trabalhou sempre em parceria com outros profissionais e passou a ser tratado simplesmente como “professor”.

Paralelamente ao ensino, ele desenvolveu uma intensa atuação como designer, especialmente no trabalho com vidro em Murano. Colaborou com a MVM Cappellin & Co. e foi diretor artístico da empresa de Paolo Venini entre 1934 e 1947, período decisivo para a sua compreensão do fazer artesanal aliado à experimentação técnica.

O reconhecimento de Carlo Scarpa cresceu com projetos de restauração, exposições internacionais e importantes prêmios.

Ainda assim, foi somente após a sua morte, em 1978, que o “professor” recebeu o diploma honoris causa em Arquitetura, título que finalmente lhe permitiria assinar, oficialmente, a autoria de suas próprias obras.

O estilo que transforma arquitetura em linguagem e harmonia

Detalhe de escada em pedra no Palazzo Steri, restaurado por Carlo Scarpa para a Universidade de Palermo, com degraus angulados, juntas aparentes e geometria precisa, evidenciando a intervenção contemporânea em diálogo com a arquitetura históricaDetalhe de escada em pedra no Palazzo Steri, restaurado por Carlo Scarpa para a Universidade de Palermo, com degraus angulados, juntas aparentes e geometria precisa, evidenciando a intervenção contemporânea em diálogo com a arquitetura histórica
Carlo Scarpa conduziu a restauração do Palazzo Steri como escrita silenciosa, com o novo dialogando com o antigo, sem ocultar o tempo (Foto: seier+seier)

O estilo de Carlo Scarpa parte do desenho como forma de pensamento visual. Cada projeto nasce da observação paciente, do traço repetido e da experimentação gráfica que constrói sentido aos poucos.

O interesse do artista por museus revela uma arquitetura que trabalha com a luz como linguagem crítica, criando espaços que fazem as obras serem vistas, compreendidas e quase indissociáveis do lugar.

Além disso, na restauração, Scarpa lê o contexto histórico com precisão e intervém sem apagar o passado, tratando a arquitetura como continuidade, não ruptura.

A arquitetura construída de Carlo Scarpa

Os principais projetos de Carlo Scarpa funcionam como lições espaciais. 

Em cada intervenção, o “professor” investigou materiais, luz, circulação e memória, criando uma arquitetura que se revela no detalhe e no percurso.

A seguir, veja alguns de seus trabalhos mais emblemáticos, nos quais técnica, narrativa e sensibilidade se encontram.

Olivetti Showroom

Fachada do Showroom Olivetti, em Veneza, projetado por Carlo Scarpa, com composição de pedras, superfícies texturizadas, molduras geométricas e vitrine iluminada integrada à arquitetura histórica urbanaFachada do Showroom Olivetti, em Veneza, projetado por Carlo Scarpa, com composição de pedras, superfícies texturizadas, molduras geométricas e vitrine iluminada integrada à arquitetura histórica urbana
Scarpa acrescenta novos fragmentos à cidade estratificada, combinando pedra, espólios e precisão contemporânea (Foto: seier+seier)

Localizado na extremidade norte da Piazza San Marco, em Veneza, o showroom da Olivetti transforma um espaço estreito e escuro em um ambiente luminoso e acolhedor.

Scarpa traduziu arquitetonicamente a precisão e o cuidado da marca com o design industrial.

As janelas de vidro ampliam a relação com o exterior, enquanto a escadaria de mármore, aparentemente suspensa, combina leveza estrutural e refinamento artesanal.

O piso em mosaico veneziano, com variações sutis de cor e tamanho, evoca o brilho instável da água, unindo minimalismo e expressão sensorial.

Aula Baratto

Interior da Aula Baratto, no Palazzo Ca’ Foscari, em Veneza, com bancos de madeira alinhados, grandes janelas envidraçadas e arcadas históricas visíveis, revelando a integração entre a arquitetura contemporânea de Scarpa, a luz natural e o cenário urbano venezianoInterior da Aula Baratto, no Palazzo Ca’ Foscari, em Veneza, com bancos de madeira alinhados, grandes janelas envidraçadas e arcadas históricas visíveis, revelando a integração entre a arquitetura contemporânea de Scarpa, a luz natural e o cenário urbano veneziano
Carlo Scarpa transformou a Aula Baratto em espaço de escuta e luz, com a paisagem integrada ao gesto arquitetônico (Foto: Cafoscaritour)

No Palazzo Ca’ Foscari, Scarpa reinventou o antigo salão de festas ao transformá-lo em auditório e, depois, em salas de aula.

O destaque está no revestimento de madeira que separa o espaço interno do corredor, marcado por diagonais e apoios em forma de “Y”.

O mobiliário e o palco em mármore revelam um vocabulário próprio, no qual cada elemento construtivo participa da composição espacial.

Memorial Brion-Vega

Vista do Memorial Brion-Vega, projetado por Carlo Scarpa, com volumes de concreto aparente, muros espessos, passagens geométricas e integração entre arquitetura, paisagem e percursos meditativosVista do Memorial Brion-Vega, projetado por Carlo Scarpa, com volumes de concreto aparente, muros espessos, passagens geométricas e integração entre arquitetura, paisagem e percursos meditativos
Carlo Scarpa construiu no Memorial Brion-Vega uma arquitetura de silêncio, percurso e matéria, pensada para o tempo e a contemplação (Foto: Fusion of Horizons)

Projetado como uma verdadeira história construída, o Memorial Brion-Vega articula túmulo e pavilhão de meditação em um jardim onde água, concreto, metal, mármore e vidro conduzem o visitante ao silêncio.

O célebre círculo duplo, formado por dois anéis entrelaçados, simboliza encontro e continuidade.

Aqui, Scarpa cria um espaço de contemplação no qual forma e percurso convidam à reflexão sobre o tempo e a finitude.

O memorial, inclusive, serviu como cenário do filme Duna – Parte 2 (2024), adaptação do romance de Frank Herbert, dirigido por Denis Villeneuve.

Casa Tabarelli

Vista externa da Casa Tabarelli, projetada por Carlo Scarpa no norte da Itália, com volumes de concreto aparente, grandes aberturas envidraçadas, telhado assimétrico e integração direta entre arquitetura, vegetação e espaço habitadoVista externa da Casa Tabarelli, projetada por Carlo Scarpa no norte da Itália, com volumes de concreto aparente, grandes aberturas envidraçadas, telhado assimétrico e integração direta entre arquitetura, vegetação e espaço habitado
A Casa Tabarelli é como uma extensão da paisagem, com volumes suspensos, matéria bruta e interior em continuidade com o exterior (Foto: Altrospazio)

Implantada sobre lajes paralelas cravadas em uma encosta, a Casa Tabarelli parece suspensa no terreno alpino.

O telhado assimétrico remete aos picos das montanhas, enquanto o concreto espesso do exterior se estende para o interior, diluindo limites.

Já o piso de quartzito e o estuque veneziano no teto evidenciam o domínio técnico e sensorial do arquiteto.

Showroom Gavina

Vista da fachada do Showroom Gavina, em Bolonha, projetada por Carlo Scarpa, com superfície contínua de concreto apicoado, inserções em metal e madeira, abertura circular em vidro e integração com o tecido urbano históricoVista da fachada do Showroom Gavina, em Bolonha, projetada por Carlo Scarpa, com superfície contínua de concreto apicoado, inserções em metal e madeira, abertura circular em vidro e integração com o tecido urbano histórico
Carlo Scarpa transformou a fachada do Showroom Gavina com concreto apicoado, latão preciso e luz tratada como matéria (Foto: seier+seier)

Ao transformar uma antiga loja de ferragens em showroom, Scarpa redefiniu completamente o espaço e criou as icônicas janelas circulares da fachada.

Esses elementos se tornaram um marco urbano, sintetizando a sua capacidade de unir função comercial, experimentação formal e presença na cidade.

Villa Veritti

Vista externa de residência projetada por Carlo Scarpa, com volumes geométricos articulados, fachadas claras, esquadrias de madeira, varandas e terraços integrados, evidenciando o diálogo entre arquitetura moderna, desenho detalhado e contexto urbano residencialVista externa de residência projetada por Carlo Scarpa, com volumes geométricos articulados, fachadas claras, esquadrias de madeira, varandas e terraços integrados, evidenciando o diálogo entre arquitetura moderna, desenho detalhado e contexto urbano residencial
Na Villa Veritti, a casa se organiza como sistema de volumes, luz e matéria, com cada fachada revelando uma forma distinta de habitar (Foto: dsdsA)

Uma das primeiras residências projetadas por Scarpa, a Villa Veritti organiza-se em torno de volumes curvos e espaços fluídos.

Grandes aberturas, paredes cilíndricas e a cuidadosa relação com o jardim criam continuidade entre interior e exterior.

Cada vista, cada percurso e cada superfície revelam o compromisso do arquiteto com a luz, o material e o gesto construtivo.

O reconhecimento tardio e o legado incontestável

Vista da entrada do portão de palácio a partir do exterior, com as grades projetadas por Carlo ScarpaVista da entrada do portão de palácio a partir do exterior, com as grades projetadas por Carlo Scarpa
Na entrada da Fundação Querini Stampalia, Carlo Scarpa construiu uma transição sensível entre água, cidade e arquitetura, síntese de um legado que redefiniu a intervenção no patrimônio (Foto: Jean-Pierre Dalbéra

O reconhecimento institucional de Carlo Scarpa veio acompanhado de tensões. 

Em 1956, ele recebeu o Prêmio Nacional Olivetti de Arquitetura e, no mesmo ano, foi convidado pela empresa a projetar o espaço expositivo da marca na Piazza San Marco, em Veneza.

Paradoxalmente, também enfrentou um processo movido pela Ordem dos Arquitetos, que o acusava de exercer a profissão sem habilitação legal.

Ainda assim, ele acumulou distinções como o Prêmio IN/Arch. e a Medalha de Ouro do Ministério da Educação Pública, ambos em 1962, além do Prêmio da Presidência da República para a Arquitetura, em 1967.

O legado de Carlo Scarpa faz parte da história da arquitetura e segue inspirando novos arquitetos a valorizarem os saberes artesanais.

Quem também inspira até hoje é Filippo Bruelleschi. Leia agora o nosso artigo sobre o arquiteto do Renascimento Florentino!

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