Fotos: Arquivo pessoal / Reprodução
Se você trabalha com criatividade, arquitetura, design ou paisagismo, é muito provável que já tenha sentido aquele frio na barriga ao ouvir falar sobre Inteligência Artificial. Será que seremos substituídos? Como a tecnologia está moldando a nossa relação com a casa e com o planeta?
Para responder a essas perguntas (e acalmar um pouco as nossas angústias), eu tive a honra de receber no Em Casa, o videocast do Casa de Valentina, uma das mentes mais brilhantes e pioneiras do Brasil quando o assunto é arte digital: a artista, pesquisadora e professora da FAU-USP, Giselle Beiguelman.
O papo foi tão profundo, fascinante e urgente que eu preparei este texto para te convidar a dar o play e assistir ao episódio completo. Garanto que você vai terminar o vídeo enxergando a IA por uma perspectiva totalmente nova.
O peso do pioneirismo e a “beleza corrosiva” do descarte
Giselle começou o nosso papo me contando sobre o peso de ser pioneira em um campo tão efêmero quanto a tecnologia. Ela relembrou sua primeira obra de Net Art, criada em 1999, que hoje já não funciona mais devido às atualizações de segurança dos sistemas operacionais.
E foi aí que tocamos em um ponto central que nós, amantes do design, precisamos encarar de frente: a obsolescência programada e o seu impacto ambiental. Enquanto no design de mobiliário nós temos o hábito de reformar — trocando o estofado de um sofá ou readaptando uma estante de madeira para um novo apartamento —, no universo digital a lógica do consumo consciente ainda engatinha.
“Antes nós nos preocupávamos se o aparelho parou de funcionar. Hoje, temos que nos preocupar para onde isso foi e quanto consumiu de recursos naturais para existir de forma tão breve”, nos alerta Giselle.
Ela trouxe o exemplo de sua instalação recente, Beleza Corrosiva, que roda o país utilizando lixo eletrônico para propor uma reflexão distópica, mas muito real, sobre um futuro onde os nossos rios serão tomados por cabos, disquetes e carcaças de computadores.
Escrever imagens, não apenas descrever
Uma das partes mais bonitas da nossa conversa foi quando desmistificamos a relação entre o artista (ou o arquiteto) e a máquina. Giselle trouxe um contraponto genial para quem acha que criar com IA é apenas “digitar um comando e ver a mágica acontecer”.
Fazendo um paralelo com a história da arte, citando desde Marcel Duchamp até as famosas “pinturas pelo telefone” de László Moholy-Nagy nos anos 1920, ela explicou que o grande segredo dos novos modelos de linguagem está em escrever imagens, e não apenas descrevê-las.
Criar com IA é um processo de negociação. É uma conversa com uma alteridade, uma inteligência que não é humana, mas que carrega uma espécie de grande memória do mundo.
O verdadeiro medo da substituição (e como se diferenciar)
Eu não podia deixar de perguntar a ela sobre o pavor que muitos arquitetos, designers e até os estudantes que estão saindo da faculdade sentem de perderem seus espaços para os algoritmos. Para ela, o que vai diferenciar a qualidade do trabalho de um profissional no futuro não é a ferramenta que ele usa, mas sim o seu repertório.
“O que vai diferenciar a qualidade dos resultados são repertórios que nas últimas décadas foram muito desprezados: a leitura de literatura, o consumo de cinema, a história da pintura e da arte no sentido mais amplo.”
Para criar projetos autênticos, que fujam do padrão estatístico e homogêneo que a Inteligência Artificial costuma entregar de fábrica, nós precisamos resgatar a nossa bagagem cultural, os saberes ancestrais e a nossa capacidade crítica.
Dê o play e mude sua perspectiva!
Nossa conversa ainda passou por momentos surpreendentes, como quando a própria Inteligência Artificial Sora surpreendeu Giselle ao criar o final poético e inesperado de um de seus vídeos, e começou a desenhar os caminhos de como a tecnologia e o morar se entrelaçam hoje.
Se você quer entender como usar a tecnologia a favor da sua criatividade sem perder a poesia, a responsabilidade ambiental e, acima de tudo, a sua identidade, esse episódio é obrigatório. Assista ao videocast completo abaixo e depois me conte aqui nos comentários: qual é o seu maior medo ou expectativa em relação à IA na sua rotina?
Aperte o PLAY para assistir ao episódio completo.







