o construtor que modernizou São Paulo

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É praticamente impossível falar da modernização da cidade de São Paulo sem citar Ramos de Azevedo.

Ele foi um engenheiro-arquiteto, professor e empreendedor paulista, responsável por introduzir repertórios técnicos e estéticos que ajudaram a moldar a paisagem urbana da metrópole.

Em um período de expansão econômica e simbólica da cidade, as obras de Ramos de Azevedo foram sinônimo de ambição, progresso e monumentalidade. 

A seguir, revisitaremos a trajetória e a influência desse grande nome da história da arquitetura. Continue no Archtrends!

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Quem foi Ramos de Azevedo?

Retrato fotográfico de Ramos de Azevedo ainda jovem, em pose formal de estúdio, com vestimenta social da época
O jovem Ramos de Azevedo, antes de transformar traços em paisagens definitivas de São Paulo (Foto: Arquivo Nacional)

Nascido em 8 de dezembro de 1851, na cidade de São Paulo, Francisco de Paula Ramos de Azevedo construiu uma trajetória decisiva para a arquitetura brasileira. 

Engenheiro-arquiteto, professor e empreendedor, formou-se na Bélgica após mudar-se ainda jovem para Gante, onde iniciou estudos em Engenharia Civil. 

Impressionado com a qualidade dos trabalhos apresentados, o diretor do curso de Arquitetura incentivou a mudança de área. 

A formação foi concluída já sob forte influência do ecletismo arquitetônico europeu.

Campinas, o laboratório inicial

Catedral Metropolitana de Campinas, um dos primeiros projetos de Ramos de Azevedo, concebido antes do início da atuação profissional na cidade de São PauloCatedral Metropolitana de Campinas, um dos primeiros projetos de Ramos de Azevedo, concebido antes do início da atuação profissional na cidade de São Paulo
Antes dos grandes marcos paulistanos, a Catedral de Campinas já revelava a escala e a ambição do jovem Ramos de Azevedo (Foto: Letícia Cardoso)

Com o canudo em mãos e de volta ao Brasil, Ramos de Azevedo instalou o primeiro escritório em Campinas, cidade em que desenvolveu os seus primeiros projetos de grande relevância. 

Entre eles estão: 

  • o Circolo Italiani Uniti (atual Casa de Saúde Campinas);
  • a conclusão da Catedral Metropolitana de Campinas; e
  • a Escola do Povo Ferreira Penteado.

Podemos dizer que o contexto urbano campineiro funcionou como campo de experimentação para Ramos de Azevedo.

Em Campinas, ele testou soluções técnicas e estéticas que mais tarde ganhariam escala ampliada na capital paulista. 

São Paulo e a arquitetura da elite

No fim do século 19, convites para projetar residências de famílias influentes motivaram a mudança de Ramos de Azevedo para a capital paulista. 

Na Rua Boa Vista, ele fundou o Escritório Técnico de Projeto e Construção, que rapidamente se consolidou como principal irradiador da arquitetura local. 

Durante décadas, dali partiram projetos residenciais da elite e edifícios públicos que ajudaram a redefinir a paisagem de uma cidade em franca expansão.

Obras que viraram símbolo

Os edifícios projetados tornaram-se marcos arquitetônicos em cidades como Campinas, São Paulo e Rio de Janeiro. 

Tais obras são verdadeiros conjuntos que articulam monumentalidade, ornamentação e soluções técnicas alinhadas ao espírito progressista do período.

Ensino, indústria e legado institucional

A atuação de Ramos de Azevedo também alcançou o campo educacional. 

Ele participou da fundação da Escola Politécnica de São Paulo, inspirada em modelos europeus de ensino técnico. 

Além disso, como diretor do Liceu de Artes e Ofícios, promoveu reformas que tornaram a instituição autossuficiente e reconhecida nacionalmente. 

O escritório de Ramos de Azevedo chegou a empregar cerca de 500 funcionários entre o fim do século 19 e as primeiras décadas do 20, participando de grandes licitações pelo país.

Memória preservada na cidade

Monumento a Ramos de Azevedo, hoje localizado na Cidade Universitária da USP, transferido da Avenida Tiradentes após as obras do metrô e reinaugurado em 1973Monumento a Ramos de Azevedo, hoje localizado na Cidade Universitária da USP, transferido da Avenida Tiradentes após as obras do metrô e reinaugurado em 1973
Localizado na USP, o monumento a Ramos de Azevedo mantém erguida a memória de quem ajudou a projetar São Paulo (Foto: Webysther)

Falecido em 12 de junho de 1928, no Guarujá, Ramos de Azevedo deixou um legado profundamente inscrito na paisagem paulistana.

Em homenagem à relevância da obra, foi erguido o Monumento a Ramos de Azevedo, hoje localizado na Praça Ramos de Azevedo.

O nome também batiza o Terminal Multimodal de Campinas, reafirmando a permanência de uma contribuição que ajudou a moldar a identidade arquitetônica do estado de São Paulo.

Quais foram as principais obras de Ramos de Azevedo?

Antes de percorrer edifícios específicos, é preciso compreender a linguagem que orientou a produção de Ramos de Azevedo. 

Como vimos, ele estudou Engenharia e Arquitetura na Bélgica. Por isso, tem um estilo profundamente influenciado pelo ecletismo europeu.

De modo geral, Ramos de Azevedo articulou referências clássicas, renascentistas e barrocas a soluções técnicas modernas para a virada do século 19 ao 20. 

Na cidade de São Paulo, as principais obras do engenheiro-arquiteto são as seguintes.

Pinacoteca do Estado de São Paulo 

Fachada da Pinacoteca do Estado de São Paulo, edifício projetado por Ramos de Azevedo para o Liceu de Artes e OfíciosFachada da Pinacoteca do Estado de São Paulo, edifício projetado por Ramos de Azevedo para o Liceu de Artes e Ofícios
Na solidez do tijolo, Ramos de Azevedo desenhou um espaço em que arte e cidade aprendem a dialogar (Foto: Mari Aruom)

Projetada inicialmente para o Liceu de Artes e Ofícios, em 1905, a Pinacoteca expressa sobriedade e rigor construtivo. 

O uso do tijolo aparente, as arcadas e a modulação rítmica das fachadas evidenciam domínio técnico e vocação didática. 

A posterior adaptação para museu reforçou o papel do edifício como guardião da produção artística nacional.

Theatro Municipal de São Paulo

Fachada do Theatro Municipal de São Paulo, um dos projetos mais emblemáticos de Ramos de Azevedo na capital paulistaFachada do Theatro Municipal de São Paulo, um dos projetos mais emblemáticos de Ramos de Azevedo na capital paulista
No Theatro Municipal, Ramos de Azevedo ergueu o palco em que São Paulo encenou a própria modernidade (Foto: Wilfredor)

Inaugurado em 1911, o Theatro Municipal sintetiza o desejo de afirmação cultural da capital. 

Inspirado nas grandes casas de ópera europeias, a edificação combina volumetria imponente, escadarias cerimoniais e rica decoração interna. 

O edifício tornou-se palco de acontecimentos históricos, como a Semana de Arte Moderna de 1922, e permanece como um dos marcos mais reconhecidos da arquitetura brasileira.

Palácio dos Correios

Fachada do Palácio dos Correios, edifício projetado por Ramos de Azevedo para sediar os serviços postais em São PauloFachada do Palácio dos Correios, edifício projetado por Ramos de Azevedo para sediar os serviços postais em São Paulo
No Palácio dos Correios, Ramos de Azevedo monumentalizou os fluxos que conectavam São Paulo ao restante do país (Foto: Wilfredor)

Em 1922, Ramos de Azevedo finalizou as obras do Palácio dos Correios, cujo projeto foi em parceria com Domiziano Rossi e Felisberto Ranzini, colaboradores de seu escritório.

Projetado para sediar os serviços postais, o edifício destaca-se pela fachada ornamentada e pela organização interna voltada à operação logística. 

Os grandes salões e as estruturas metálicas evidenciam a preocupação funcional integrada à estética institucional.

A edificação foi tombada em 2012 e, desde então, abriga o Centro Cultural Correios, que promove atividades artísticas e culturais diversas.

Além disso, cede espaço para a Agência Filatélica D. Pedro II, instituição que presta serviços a pessoas colecionadoras de selos. 

Mercado Municipal de São Paulo

Vista aérea do Mercado Municipal de São Paulo, projeto do escritório de Ramos de Azevedo voltado ao abastecimento e à vida urbanaVista aérea do Mercado Municipal de São Paulo, projeto do escritório de Ramos de Azevedo voltado ao abastecimento e à vida urbana
No Mercadão, Ramos de Azevedo uniu engenharia e cotidiano no coração pulsante de São Paulo (Foto: MTur Destinos)

Concebido pelo escritório de Ramos de Azevedo e inaugurado em 1933, o Mercadão alia escala monumental à lógica funcional de abastecimento. 

A estrutura metálica, os amplos vãos e os vitrais que retratam o trabalho e a produção agrícola revelam a integração entre técnica e narrativa visual. 

O espaço consolidou-se como polo gastronômico e cultural da cidade. Hoje, o Mercado Municipal é presença obrigatória em qualquer roteiro turístico de São Paulo. 

Palácio da Justiça de São Paulo

Fachada do Palácio da Justiça de São Paulo, edifício projetado por Ramos de Azevedo para sediar o Poder Judiciário paulistaFachada do Palácio da Justiça de São Paulo, edifício projetado por Ramos de Azevedo para sediar o Poder Judiciário paulista
No Palácio da Justiça, Ramos de Azevedo materializou em arquitetura a solidez da legislação brasileira (Foto: Catherine Gaspar)

Localizado na Praça da Sé, o Palácio da Justiça foi inaugurado em 1933, cinco anos após a morte de seu idealizador, e representa a força institucional do Judiciário. 

O edifício conta com colunas monumentais, volumetria robusta e composição simétrica, que reforçam a ideia de estabilidade e poder. 

A linguagem eclética, portanto, aparece aqui associada à representação física do Estado.

Edifício Ramos de Azevedo (Arquivo Histórico Municipal)

Fachada do Arquivo Histórico Municipal de São Paulo, instalado em edifício projetado por Ramos de AzevedoFachada do Arquivo Histórico Municipal de São Paulo, instalado em edifício projetado por Ramos de Azevedo
No edifício que hoje guarda memórias, Ramos de Azevedo também deixou gravada a arquitetura do tempo (Foto: Gi Fontenelle)

O Edifício Ramos de Azevedo foi inaugurado em 17 de abril de 1920 e, inicialmente, serviu como uma extensão da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP).

Desde o ano 2000, a edificação abriga o Arquivo Histórico Municipal de São Paulo, que guarda documentos históricos, mídias fotográficas e audiovisuais, entre outros.

Arquitetonicamente, o edifício tem um estilo eclético com influências neoclássicas, caracterizado por robustez e imponência. 

Além disso, em seu interior, conta com vitrais, pisos de mármore e escadarias clássicas. 

Edifício Lutetia 

Edifício Lutetia, projetado por Ramos de AzevedoEdifício Lutetia, projetado por Ramos de Azevedo
No Edifício Lutetia, a arquitetura de Ramos de Azevedo segue acolhendo a criação artística que pulsa na São Paulo contemporânea (Foto: Wilfredor)

Com fachada elegante, sacadas e ornamentação, o Edifício Lutetia traduz a influência europeia na arquitetura paulistana. 

Destinado a atividades comerciais e de serviços, tornou-se referência de requinte no tecido urbano central.

Atualmente, o Lutetia pertence à Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP). 

Desde 2004, ele abriga a Residência Artística FAAP, espaço que recebe artistas de todo mundo, que realizam trabalhos culturais e de pesquisa em São Paulo. 

Cemitério da Consolação

Portão monumental do Cemitério da Consolação, em São Paulo, com projeto arquitetônico associado a Ramos de AzevedoPortão monumental do Cemitério da Consolação, em São Paulo, com projeto arquitetônico associado a Ramos de Azevedo
No portal da Consolação, Ramos de Azevedo desenhou a passagem simbólica entre cidade, memória e eternidade (Foto: Dornicke)

Intervenções e projetos ligados a Ramos de Azevedo contribuíram para qualificar o conjunto arquitetônico do cemitério, em 1901. O arquiteto é responsável, por exemplo, pelo pórtico de entrada, a capela e o ossário.

Mausoléus e capelas reforçam o valor artístico do espaço, hoje reconhecido como museu a céu aberto da escultura e da arquitetura funerária.

O Cemitério da Consolação também é o local de sepultamento de diversas figuras históricas e artísticas importantes do Brasil, tais como Tarsila do Amaral,  Mário de Andrade, Monteiro Lobato, Paulo Freire, Elis Regina e o próprio Ramos de Azevedo.

Faculdade de Medicina da USP (Casa de Arnaldo)

Edifício histórico da Faculdade de Medicina da USP, em São PauloEdifício histórico da Faculdade de Medicina da USP, em São Paulo
Na Faculdade de Medicina, Ramos de Azevedo projetou a arquitetura que abrigaria a ciência em ascensão em São Paulo (Foto: JVech)

A sede histórica da Faculdade de Medicina, conhecida popularmente como Casa de Arnaldo (em referência a Arnaldo Vieira de Carvalho, fundador da instituição), expressa a valorização da pesquisa e da saúde pública no início do século 20. 

Entre os destaques arquitetônicos da edificação estão as escadarias de mármore e os vitrais, que seguem preservados, mesmo após as constantes reformas, necessárias para acomodar as necessidades atuais.

Casa das Rosas 

Casa das Rosas, residência projetada por ordem de Ramos de Azevedo na Avenida Paulista, hoje dedicada à literatura e à produção culturalCasa das Rosas, residência projetada por ordem de Ramos de Azevedo na Avenida Paulista, hoje dedicada à literatura e à produção cultural
Casa das Rosas: um refúgio no qual a arquitetura e a poesia florescem na Paulista (Foto: Paulo SP)

A Casa das Rosas foi projetada por Felisberto Ranzini, que era colaborador do escritório de Ramos de Azevedo.

Embora não tenha sido diretamente arquitetada pelo chefe, a residência seguia as diretrizes e o estilo dele. 

A ideia inicial da casa era servir como residência do engenheiro-arquiteto e sua família. Porém, ela só foi concluída em 1935, anos após a sua morte. 

Quem acabou vivendo no casarão foi Lúcia Ramos de Azevedo, filha do arquiteto, e seu marido, Ernesto Dias de Castro.

Em 1986, o Governo do Estado de São Paulo desapropriou o imóvel e o transformou em uma casa de cultura. 

Por conta do tombamento, elementos clássicos, jardins planejados e ornamentação refinada contrastam hoje com a verticalização da Avenida Paulista. 

Transformada em espaço cultural, a Casa das Rosas mantém viva a memória da ocupação aristocrática inicial da via.

Hoje, o local abriga exposições artísticas e também serve como biblioteca. É lá que está, por exemplo, a primeira edição do clássico Macunaíma, de Mário de Andrade, datada de 1928.

O conjunto dessas obras revela a amplitude tipológica e simbólica da produção de Ramos de Azevedo. Ele transformou cultura, comércio, ensino e institucionalidade em instrumento de construção da identidade urbana paulistana.
Continue se encantando com a arquitetura de São Paulo: leia agora o nosso artigo que mostra espaços urbanos que contam histórias na maior metrópole da América Latina.

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