A Casa Território é uma expressão sensível e potente da arquitetura nacional contemporânea apresentada na primeira edição da Bienal de Arquitetura Brasileira (BAB), em São Paulo.
Mais do que um espaço expositivo, o projeto propõe uma imersão no modo de viver em Roraima, traduzindo paisagem, cultura e memória em uma experiência arquitetônica viva.
Durante o evento, a Portobello teve a oportunidade de conversar com a arquiteta Natássia Cruz (Estúdio Modullus), uma das autoras, ao lado de Rayresson Rocha e Jacqueliny Ramires.
A partir dessa troca, foi possível perceber que a Casa Território não é apenas uma casa, mas uma narrativa construída, em que cada escolha carrega significado.
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Projeto é um lar que se torna território

A Casa Território nasce de um conceito poético: transformar o lar em território. Portanto, vai além da proposta de representar Roraima, buscando incorporar sua essência.
É uma arquitetura que não apenas abriga, mas comunica. Afinal, transforma o espaço em um organismo vivo, atravessado por referências naturais, culturais e afetivas.
Isso acontece por meio de tons terrosos e vibrantes, que representam a força do Norte. Além disso, a vegetação incorporada à decoração cria sensação de pertencimento.
Já as formas orgânicas e os materiais naturais reforçam a estética aconchegante, que dialoga com a paisagem de Roraima.
Assim, elementos característicos da região, como o Rio Branco, o lavrado e o céu, são representados em cada detalhe, que faz o projeto ser rico não só em brasilidade, mas em regionalidade.
Esse pensamento se materializa logo na entrada, com a varanda-hall. Um gesto simples, mas carregado de significado, que resgata um costume tradicional das casas de Boa Vista: o espaço de transição entre a rua e o interior, onde o acolhimento começa antes mesmo de cruzar a porta.
Percurso que organiza Casa Território tem inspiração no Rio Branco
Um dos elementos mais marcantes da Casa Território é o percurso curvo que atravessa o projeto. Além de uma solução formal, a curva é um conceito estruturante.
Inspirada no Rio Branco, ela conduz o olhar e o corpo, organizando os fluxos internos e criando uma narrativa espacial contínua.
Sala, ateliê e cozinha se conectam por esse gesto fluido, que remete às águas e à geografia do estado.
Assim como no território roraimense, tudo nasce e retorna a esse eixo. A casa deixa de ser compartimentada para se tornar uma experiência em constante movimento.
Entre natureza e criação: o ateliê como expressão do território
No início desse percurso, o ateliê surge integrado ao jardim, em uma relação direta entre natureza e criação.
Esse espaço representa a força da produção artística local, evocando a presença de artistas indígenas e a potência criativa do território.
É um ambiente que simboliza o encontro entre ancestralidade e contemporaneidade; entre o gesto manual e a paisagem que o inspira.
Aqui, arquitetura e arte se fundem. Afinal, o espaço não apenas abriga a criação, mas nasce dela.
Encontro entre cozinha e estar tem natureza viva no centro da casa


No centro da casa, cozinha e estar se encontram em um espaço que sintetiza o conceito do projeto. O elemento que liga os ambientes é uma mesa em madeira com corte orgânico, com uma pitangueira no meio, simbolizando uma conexão viva.
Mais do que integração funcional, esse ponto busca trazer a natureza para dentro. E, de forma surpreendente, ela responde, como conta Natássia Cruz.
“Eu acho que, de todos os cantinhos do projeto, aquele que mais me fez refletir sobre algumas premissas adotadas foi esse ponto central, onde a gente tem o encontro da cozinha com o estar.”
A preferência tem um motivo que vai além da estética. “De uma forma extraordinária, essa pitangueira floriu e também deu um fruto”, diz a arquiteta, enfatizando que as condições de iluminação favoreceram o desenvolvimento da natureza na Casa Território.
O sol como centro de uma arquitetura que irradia identidade
No coração da casa, um elemento ganha protagonismo no teto: o forro ripado que se expande a partir de um ponto central.
Esse desenho carrega múltiplas referências. Ele remete ao sol intenso do Norte, ao traçado urbano de Boa Vista, inspirado em eixos radiais, e às estruturas das malocas indígenas.
A arquiteta reforça essa leitura ao falar sobre a relação entre espaço e identidade.
“A gente fala muito sobre como é o modo contemporâneo de viver do roraimense e do boavistense. A cidade respira modernidade. É uma cidade planejada, e isso é muito importante a gente frisar. Afinal de contas, é motivo de muito orgulho para todos nós”, explica Natássia, a respeito da luminária de três sentidos que sintetiza os raios de sol que banham a cidade, do plano diretor de Boa Vista e também do cocar indígena, que é o adorno de maior identificação dos povos originários da região.
O resultado é uma arquitetura que irradia significado, onde luz, forma e cultura se entrelaçam.
Lavrado é a paisagem que molda o espaço


A Casa Território carrega, em sua materialidade, a presença do lavrado, conhecida como a savana amazônica, que define a paisagem de Roraima.
Tons terrosos, texturas minerais e superfícies quentes aparecem nos revestimentos, na tapeçaria e nos objetos, criando uma atmosfera que remete diretamente ao solo e ao horizonte aberto da região.
Essa escolha não é estética apenas. É uma forma de trazer para dentro da casa a memória da terra, reforçando a ideia de pertencimento e conexão.
Ambientes da Casa Território traduzem sensações


Cada espaço da Casa Território foi pensado para provocar uma experiência sensorial específica.
A suíte, por exemplo, convida à desaceleração. É um ambiente mais contido, onde o olhar se direciona para elementos essenciais, como o sol representado em tons quentes.
Um dos destaques do espaço é o tapete com a frase “no lavrado banhado de sol”, que a arquiteta explica.
“A tapeçaria fala sobre o sentimento de conviver com o sol e ter esse pertencimento no espaço. A suíte fala sobre o ato da gente desacelerar, sobre a forma como a gente entende que o corpo está se acalmando, e a gente vai entrando em um processo de descanso.”
É um detalhe que reforça a proposta do projeto de ter menos excessos e mais essência roraimense.


No banheiro, a experiência sensorial de um banho de cachoeira


O banheiro da Casa Território é um dos pontos mais marcantes da experiência. O espaço busca reproduzir a sensação de um banho de cachoeira, combinando luz, textura e elementos naturais.
“Por ser uma terra muito rica, a gente também tem uma região de serra, que é maravilhosa, lindíssima, que é a Serra do Tepequém. Ela foi, com certeza, a principal inspiração para o nosso banheiro”, conta Natássia Cruz.
A composição reforça essa narrativa, que tem “a entrada da luz através das telas tensionadas, a questão da textura bruta da terra e a lastra Verde Alpi, da Portobello, que fala sobre as mil tonalidades do verde e vem com a presença elegante do mármore. É muito bom a gente viver essa natureza próxima, sentir a rusticidade da pedra”, complementa a arquiteta.
No box, o mesmo porcelanato do restante do piso foi cortado em formas orgânicas para criar uma atmosfera imersiva. O revestimento, inclusive, é o Superquadra Cru no formato 90×90 cm com acabamento natural, que permite o uso em áreas molhadas com segurança.
Uso de produtos Portobello reflete relação da arquiteta com a marca
Além de apoiar a primeira Bienal de Arquitetura Brasileira, a marca também faz parte da carreira de Natássia Cruz por meio da Comunidade Portobello+Arquitetura.
“Eu adoro fazer parte da Comunidade Portobello+Arquitetura. Sempre me sinto muito apoiada e valorizada”, revela a arquiteta.
Nesse espaço de troca e crescimento profissional, ela teve a oportunidade de participar de eventos internacionais, como o Salão do Móvel de Milão e a Cersaie, além de fazer viagens de pesquisa com o Coletivo Criativo.
“É sempre um prazer participar, afinal, nós ficamos imersos e cocriamos coletivamente um produto muito especial para a fábrica. Mais uma vez, temos o apoio da Portobello, sendo muito colaborativa conosco neste projeto pioneiro que é a primeira Bienal de Arquitetura Brasileira”, afirma Natássia.
Cotidiano, memória e cultura se encontram na Casa Território


Alguns detalhes da Casa Território também merecem destaque. Um exemplo é o tapete do living, criado para ampliar a narrativa do projeto.
Desenvolvido especialmente para a Bienal, ele traz referências à serra, ao caju e à imigração nordestina, que são elementos que fazem parte da construção cultural de Roraima.
Portanto, a Casa Território mostra que arquitetura não é apenas sobre espaço, mas também sobre histórias. Sobre como diferentes camadas culturais se sobrepõem e constroem identidades.
É um projeto que entende o território como algo vivo, que molda a arquitetura, atravessa os ambientes e transforma a experiência de habitar.
Se você é arquiteto ou designer de interiores e busca experiências enriquecedoras para a sua carreira, participe da Comunidade Portobello+Arquitetura.







