A Bienal de Veneza 2026 chega menos interessada em espetáculos monumentais e mais atenta aos detalhes, aos silêncios e às sensibilidades do cotidiano.
Sob a curadoria de Koyo Kouoh (1967-2025), Em Tons Menores propõe uma leitura cultural que atravessa arte, cinema, dança, música e teatro — e que também conversa diretamente com a arquitetura.
Mesmo sem uma mostra dedicada à disciplina neste ano, Veneza segue como um dos principais observatórios criativos do mundo para arquitetos e designers.
É ali que muitas tendências estéticas, discussões sociais e novas formas de pensar os espaços costumam aparecer antes de alcançarem galerias, cidades e projetos ao redor do planeta.
A seguir, saiba mais sobre o evento.
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Bienal de Veneza 2026: quando a arte prefere o silêncio ao espetáculo

Com a curadoria de Koyo Kouoh, a Bienal de Veneza 2026 abandona os grandes excessos visuais para olhar com atenção para aquilo que costuma passar despercebido.
O tema Em Tons Menores propõe uma experiência sensorial e intimista, em que memória, espiritualidade, vulnerabilidade e identidade aparecem como fios condutores de diversas exposições.
Mesmo sem uma edição dedicada à arquitetura, Veneza continua a ser um dos principais observatórios culturais do mundo para arquitetos, urbanistas, designers e demais profissionais da área.
Afinal, muitos debates sobre ocupação de espaços, corpo, materialidade, patrimônio e cidade surgem primeiro na arte contemporânea, antes de alcançarem outros campos.
Veneza como território de experimentação


A Bienal transforma a cidade em um grande circuito criativo. Igrejas históricas, palácios renascentistas, antigos armazéns e fundações culturais espalhados por Veneza recebem instalações, exposições e performances que criam uma relação direta entre arte e espaço urbano.
Entre os destaques da edição estão:
- Marina Abramović, que apresenta a mostra Transforming Energy na Gallerie dell’Accademia di Venezia, reunindo performances históricas e instalações imersivas;
- Jenny Saville, com suas pinturas monumentais do corpo humano no Ca’ Pesaro; e
- Erwin Wurm, que ocupa o Museo Fortuny com esculturas e instalações marcadas por humor e ironia.
Também chamam atenção as exposições de Lorna Simpson, Michael Armitage e Nalini Malani, que discutem colonialismo, violência, memória e identidade por meio de instalações, vídeos, pinturas e sons.
Detalhes do Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza 2026


Entre as participações nacionais da Bienal de Veneza 2026, poucas despertaram tanta expectativa quanto o projeto Comigo ninguém pode.
Instalado no Pavilhão do Brasil, o trabalho reúne duas das artistas mais relevantes da produção contemporânea brasileira: Adriana Varejão e Rosana Paulino, sob curadoria de Diane Lima.
A proposta se distancia de uma exposição tradicional organizada apenas por obras distribuídas. A curadoria pensa o espaço como uma composição atmosférica, quase musical, construída por tensões, contrastes, silêncios, repetições e sobreposições visuais.
O resultado parece menos interessado em explicar o Brasil de maneira didática e mais disposto a provocar sensações ligadas à ancestralidade, espiritualidade, violência colonial e permanência histórica.
O próprio título já revela essa intenção. A planta comigo-ninguém-pode, bastante presente em casas brasileiras, carrega uma ambivalência simbólica poderosa: ao mesmo tempo tóxica e protetora; delicada e resistente. A partir dessa imagem, a exposição constrói uma reflexão sobre sobrevivência, memória e reconstrução.
Rosana Paulino


Na obra de Rosana Paulino, essa discussão aparece principalmente pela representação da mulher negra como corpo histórico e território de continuidade. Seus trabalhos frequentemente abordam apagamentos sociais produzidos pelo colonialismo e pela escravidão, mas sem recorrer a uma narrativa linear.
Em Veneza, figuras femininas aparecem como entidades que costuram memória, espiritualidade e transformação. Séries como Aracnes e Ninfa tecendo o casulo reforçam essa ideia da mulher como agente que produz permanência a partir das próprias feridas.
Adriana Varejão


Já Adriana Varejão amplia a dimensão material da exposição. Conhecida por trabalhos que simulam azulejos partidos, ruínas coloniais, paredes abertas e carne exposta, a artista transforma superfícies em narrativas históricas.
Em Comigo ninguém pode, suas pinturas passam a dialogar diretamente com o edifício modernista. Em vez de ocupar apenas as paredes, as obras parecem contaminar a arquitetura, criando uma sensação de fissura permanente entre passado e presente.
Esse diálogo com o espaço ganha força porque o pavilhão passou recentemente por um processo de restauração, conduzido pela Fundação Bienal de São Paulo em parceria com instituições brasileiras.
Projetado em 1964 pelos arquitetos Giancarlo Palanti, Henrique Mindlin e Walmyr Lima Amaral, o edifício recuperou elementos originais da fachada e das laterais de vidro pouco antes desta edição da Bienal.
Isso cria uma camada simbólica importante: enquanto a arquitetura é restaurada fisicamente, a exposição discute justamente as ruínas históricas, culturais e sociais que ainda atravessam o Brasil contemporâneo.
Uma Bienal espalhada pela cidade


Um dos aspectos mais interessantes da Bienal é justamente a forma como Veneza inteira participa do evento.
Além dos Giardini e do Arsenale, instituições como a Fondazione Prada, a Peggy Guggenheim Collection e a nova Fondazione Dries Van Noten ampliam o circuito cultural da cidade com exposições que atravessam arte, moda, design e patrimônio.
Para arquitetos, esse talvez seja um dos pontos mais ricos da experiência: perceber como os espaços históricos venezianos são reinterpretados temporariamente por diferentes linguagens artísticas, criando usos, percursos e atmosferas.
Como visitar a Bienal de Veneza 2026


A Bienal de Veneza 2026 acontece desde 9 de maio e vai até 22 de novembro de 2026. A programação principal ocupa os Giardini, o Arsenale e outros espaços distribuídos pela cidade.
Os horários variam conforme cada exposição, mas grande parte das mostras funciona entre 10h e 18h. Há exibições gratuitas e outras com ingressos.
Como muitas atrações exigem reserva, especialmente em fundações e palácios históricos, vale consultar previamente os canais oficiais da Bienal e das instituições participantes.
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