grande ícone da arquitetura brasileira

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A grandiosidade de Paulo Mendes da Rocha ultrapassa a escala dos edifícios e alcança o próprio pensamento urbano brasileiro.

Integrante da geração modernista liderada por João Batista Vilanova Artigas, ele consolidou uma arquitetura que encara o espaço público como estrutura de convivência.

Ao longo das últimas décadas, Mendes da Rocha tornou-se referência incontornável da arquitetura contemporânea no país. O reconhecimento internacional veio com o Prêmio Pritzker, recebido em 2006.

A parceria com a Portobello, na linha Soma assinada com Nadezhda Mendes da Rocha, reforça esse diálogo fértil entre matéria e conceito.

A seguir, saiba mais sobre esse grande ícone da arquitetura brasileira.

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A trajetória de Paulo Mendes da Rocha

Paulo Mendes da Rocha sentado em poltrona preta, segurando microfone e apontando com o dedo durante palestra no Archtrends Summit, com painel da Portobello ao fundoPaulo Mendes da Rocha sentado em poltrona preta, segurando microfone e apontando com o dedo durante palestra no Archtrends Summit, com painel da Portobello ao fundo
Arquitetura como reflexão pública: Paulo Mendes da Rocha em fala firme, conectando estrutura, cidade e responsabilidade coletiva (Foto: Archtrends)

Capixaba de Vitória, nascido em 25 de outubro de 1928, Paulo Mendes da Rocha demonstrou desde cedo interesse por artes, desenho e criação de projetos. 

Ele cresceu em um ambiente atento à técnica e à engenharia, uma vez que seu pai, Paulo Menezes Mendes da Rocha, era engenheiro e chegou a ser diretor da Escola Politécnica da USP. Essa convivência marcaria de forma decisiva a sua visão estrutural da arquitetura.

Em 1954, aos 26 anos, Mendes da Rocha graduou-se em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, integrando uma das primeiras turmas formadas no curso. 

Na época, o contexto acadêmico ainda era fortemente influenciado por modelos historicistas. 

Por conta disso, ao lado de colegas como Jorge Wilheim e Carlos Millan, Mendes da Rocha organizou um grupo de estudos dedicado à arquitetura moderna, inspirado na obra de João Batista Vilanova Artigas. 

Ali começava a se delinear a chamada Escola Paulista, marcada pela clareza estrutural e pelo compromisso urbano.

Primeiros reconhecimentos e afirmação profissional

A consolidação profissional veio rapidamente. Em 1958, Paulo Mendes da Rocha venceu o concurso para o projeto do Ginásio do Clube Atlético Paulistano, obra que se tornaria um marco da arquitetura brasileira do século XX. 

A solução estrutural arrojada, baseada em grandes vigas de concreto armado, evidenciava a sua confiança na técnica como linguagem.

O projeto lhe rendeu o Grande Prêmio Presidência da República na 6ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1961. 

A partir desse momento, o seu nome passou a ocupar posição central no debate arquitetônico nacional.

Docência e compromisso social

Também em 1961, Paulo Mendes da Rocha foi convidado a lecionar na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo.

Em sala de aula, ele defendia que a arquitetura não se restringe à forma, mas envolve responsabilidade social, infraestrutura e cidade. 

Para ele, o arquiteto atua como agente político no sentido amplo do termo, alguém que interfere nas condições de vida coletiva.

Essa postura crítica e progressista gerou tensões após 1964, com a instauração da ditadura militar no Brasil. Inclusive, Mendes da Rocha passou a ser perseguido por suas posições. 

Em 1969, ele teve os direitos políticos cassados e foi impedido de lecionar em qualquer instituição de ensino do país. O afastamento compulsório marcou um período difícil, mas não interrompeu sua produção intelectual e profissional.

O retorno às salas de aula ocorreu apenas em 1980, já em um contexto de enfraquecimento do regime ditatorial.

Ele permaneceu na docência até 1998, formando gerações de arquitetos que herdaram o seu rigor crítico e sua visão urbana.

Reconhecimento internacional

Ao longo da carreira, Paulo Mendes da Rocha recebeu importantes distinções. Em 2001, por exemplo, foi laureado com o Prêmio Mies van der Rohe, ampliando a sua projeção internacional. 

Já em 2006, conquistou o Prêmio Pritzker, considerado a maior honraria da arquitetura mundial. Até hoje, apenas ele e Oscar Niemeyer receberam esse reconhecimento entre os brasileiros.

O Pritzker consolidou a sua posição como um dos grandes nomes da arquitetura contemporânea. 

A produção de Mendes da Rocha, marcada por museus, equipamentos culturais e projetos urbanos, sempre articulou estrutura, espaço público e reflexão crítica sobre a cidade.

Legado e permanência

Paulo Mendes da Rocha faleceu aos 92 anos, em 23 de maio de 2021, em São Paulo. A partida mobilizou o meio arquitetônico no Brasil e no exterior.

Mais do que obras emblemáticas, Mendes da Rocha deixou uma atitude diante do projeto. 

A sua arquitetura discutia a vida cotidiana, questionava soluções fáceis e confrontava o conformismo. 

Cada trabalho era entendido como oportunidade de transformação, capaz de ultrapassar os limites do programa, do lote e do material.

Vale destacar que a influência de Paulo Mendes da Rocha não se resume a uma linguagem formal: está no modo de pensar a cidade como infraestrutura de convivência e na defesa de uma simplicidade que carrega potência política. 

Por isso, o seu legado permanece vivo no debate arquitetônico e na formação de profissionais que ainda hoje encontram em sua trajetória uma referência ética e intelectual.

As principais criações de Paulo Mendes da Rocha

A trajetória de Paulo Mendes da Rocha pode ser lida como uma sequência de experimentos estruturais, urbanos e conceituais que redefiniram o papel da arquitetura no Brasil. 

Cada projeto, em diferentes escalas, articula técnica, cidade e vida coletiva. Trata-se, sem dúvida, de um portfólio que inspira. 

A seguir, revisitamos as suas obras mais emblemáticas, observando como sua linguagem se consolidou ao longo das décadas.

1957 — Poltrona Paulistano

Antes dos grandes equipamentos urbanos, Mendes da Rocha já demonstrava a sua síntese formal no design. 

A Poltrona Paulistano nasce de um único tubo de aço dobrado que sustenta uma capa tensionada em couro ou tecido. O desenho elimina excessos e transforma a estrutura em expressão. 

A peça tornou-se ícone do design brasileiro moderno e antecipa princípios centrais da obra de Mendes da Rocha: economia de meios, clareza construtiva e confiança na engenharia como linguagem.

1958–1961 — Ginásio do Clube Atlético Paulistano

Primeira grande obra de Paulo Mendes da Rocha, o Ginásio do Clube Atlético Paulistano redefiniu a arquitetura esportiva no país. 

A cobertura, sustentada por seis vigas de concreto armado, cria um espaço livre de apoios centrais, valorizando a experiência coletiva.

A solução estrutural ousada rendeu ao arquiteto o Grande Prêmio Presidência da República na 6ª Bienal de São Paulo. 

Além disso, o projeto consolidou a posição de Mendes da Rocha como protagonista da chamada Escola Paulista.

1964 — Casa Butantã

Projetada como residência para sua família, a Casa Butantã funciona como um manifesto doméstico de Paulo Mendes da Rocha.

Elevada do solo, com grandes vãos e estrutura em concreto aparente, a casa propõe uma nova organização do espaço doméstico.

Além disso, a residência valoriza a integração, a ventilação e a flexibilidade, questionando modelos tradicionais de morar. 

Essa edificação tornou-se referência acadêmica e símbolo da arquitetura moderna paulista. 

1965 — Edifício Guaimbê

Localizado no bairro Jardins, em São Paulo, o Edifício Guaimbê é um prédio residencial que revela o brutalismo aplicado à habitação urbana. 

A edificação conta com sacadas profundas, ritmo estrutural marcado e concreto aparente, que definem a sua identidade.

A obra também demonstra como Mendes da Rocha transportava os mesmos princípios de rigor estrutural das obras públicas para o cotidiano da moradia.

1986–1995 — Estádio Serra Dourada

Em Goiânia, o Estádio Serra Dourada evidencia a capacidade de Paulo Mendes da Rocha ao trabalhar em grande escala. 

A estrutura em concreto organiza as arquibancadas integradas ao terreno, criando monumentalidade sem ornamentação.

O projeto reafirma a arquitetura como infraestrutura urbana e como espaço de encontro coletivo.

1987 — Capela de São Pedro

Localizada em Campos do Jordão, a Capela de São Pedro apresenta paredes de vidro que conectam interior e paisagem. 

A leveza estrutural e a transparência criam atmosfera contemplativa, fazendo com que os visitantes possam apreciar as belas paisagens da região. 

Na Capela, a espiritualidade emerge da relação com o entorno natural, e não de elementos decorativos tradicionais. É isso que atrai visitantes de todos os lugares do mundo.

1988–1993 — Reforma da Pinacoteca de São Paulo

Convidado a intervir no edifício histórico projetado por Ramos de Azevedo, Mendes da Rocha propôs nova circulação interna com passarelas metálicas e eixo longitudinal que articula os espaços expositivos.

A intervenção estabelece diálogo firme entre passado e contemporaneidade, mantendo o estilo neoclássico da edificação.

O projeto recebeu o Prêmio Mies van der Rohe para a América Latina e tornou-se referência em restauro crítico.

1990–1995 — Museu Brasileiro de Escultura e Ecologia

O Museu Brasileiro de Escultura e Ecologia (MuBE), em São Paulo, sintetiza a visão de espaço público de Paulo Mendes da Rocha. 

A grande viga de concreto em balanço cria marco urbano e abriga áreas expositivas subterrâneas.

O ambiente ainda conta com uma praça aberta, que reforça a ideia de museu como extensão da cidade. 

Em outras palavras, estrutura e urbanidade se fundem nesse importante projeto de Mendes da Rocha.

2002 — Pórtico da Praça do Patriarca

No centro de São Paulo, o pórtico metálico na Praça do Patriarca cria uma cobertura leve que conecta o centro histórico à área renovada.

A intervenção ocupa um antigo ponto de ônibus e transforma o espaço em elo simbólico entre passado e presente, reafirmando a preocupação de Mendes da Rocha com a escala urbana.

2006 — Museu Nacional dos Coches

Em Lisboa, o projeto do Museu Nacional dos Coches apresenta uma volumetria marcada por grandes planos horizontais e pilares robustos.

O espaço abriga os coches e as carruagens pertencentes à Casa Real Portuguesa e utilizados entre os séculos XVI e XIX.

A obra amplia a atuação internacional de Mendes da Rocha e reafirma a clareza estrutural como elemento central de sua arquitetura.

2006–2010 — Intervenção na Estação da Luz e Museu da Língua Portuguesa

A intervenção na Estação da Luz, em São Paulo, integrou a infraestrutura ferroviária histórica ao novo programa museológico do Museu da Língua Portuguesa.

O projeto valorizou a estrutura original e incorporou soluções contemporâneas, consolidando a sua atuação em edifícios históricos de grande relevância cultural.

Uma curiosidade interessante é que, nesse projeto, Paulo trabalhou ao lado de seu filho, o também arquiteto Pedro Mendes da Rocha. 

2007–2022 — Cais das Artes

Encomendado pelo Governo do Espírito Santo, o complexo cultural Cais das Artes, em Vitória, foi concebido como marco urbano à beira-mar.

Com volumes suspensos e forte presença estrutural, o projeto reafirma a relação com a paisagem portuária e com a ideia de cultura como infraestrutura pública. 

A operação do complexo teve início apenas em 2026, quase vinte anos após a realização do projeto. 

2008 — Casa Quelhas

Projetada em Lisboa, numa parceria entre Mendes da Rocha e a arquiteta portuguesa Inês Lobo, a Casa Quelhas adapta princípios brutalistas ao contexto europeu.

Todo o edifício recorre a recursos materiais e tecnologias comuns em Portugal, tais como betão armado, madeira, pedra calcária e mosaico hidráulico.

A obra demonstra que a linguagem estrutural defendida por Mendes da Rocha atravessa fronteiras culturais, mantendo coerência conceitual em qualquer lugar do mundo.

2017 — Sesc 24 de Maio

Entre as obras finais da carreira de Paulo Mendes da Rocha,  o Sesc 24 de Maio, no centro de São Paulo, representa a síntese madura de seu pensamento. 

Nesse projeto, as rampas internas evocam a topografia urbana paulistana, e a piscina no terraço cria novo horizonte visual para a cidade.

O edifício transforma antiga estrutura comercial em equipamento cultural vibrante, reafirmando a arquitetura como instrumento de revitalização urbana.

Ao observar essa sequência de obras, percebe-se que Paulo Mendes da Rocha nunca tratou a arquitetura como exercício formal isolado. 

Cada projeto foi uma oportunidade de intervir na cidade, questionar modelos estabelecidos e propor novas formas de convivência. 

A produção do arquiteto permanece como referência para profissionais que entendem a técnica como compromisso coletivo e a estrutura como linguagem.

Linha Soma: legado que ganha escala

Projeto de interiores com revestimento geométrico da linha Soma da Portobello aplicado no piso e na parede, combinação de formas abstratas em preto e off-white, mobiliário moderno e vegetação lateralProjeto de interiores com revestimento geométrico da linha Soma da Portobello aplicado no piso e na parede, combinação de formas abstratas em preto e off-white, mobiliário moderno e vegetação lateral
Geometria que organiza o espaço e cria ritmo visual, a linha Soma da Portobello constrói uma identidade gráfica com personalidade e equilíbrio (Projeto: Nadezhda Mendes da Rocha)

Não podemos falar de Paulo Mendes da Rocha sem citar a linha Soma, desenvolvida em cocriação com a Portobello ao lado de sua filha, Nadezhda Mendes da Rocha. 

Trata-se da materialização de um pensamento arquitetônico que atravessa gerações e faz com que a genialidade de Mendes da Rocha seja aplicada a diversos projetos criativos.

A linha apresenta porcelanatos com estética de concreto aparente, referência direta à obra do arquiteto.

Entre os destaques estão:

Com opções de acabamento natural e EXT, além de uma variedade de formatos, as peças podem ser aplicadas em pisos, paredes e áreas externas.

Paulo Mendes da Rocha nos deixou em 2021 e, infelizmente, não chegou a ver o resultado final da coleção. Ainda assim, a Linha Soma carrega a sua lógica construtiva e sua visão de arquitetura como síntese entre técnica e vida coletiva.

Com a contribuição decisiva de Nadezhda, Soma leva para milhares de projetos pelo país um fragmento do pensamento do arquiteto. 

A linha Soma demonstra que legado também pode ser superfície: matéria que traduz história, modernidade e permanência.

Archtrends Summit 2020: um encontro que marcou nossa história

Na edição de 2020 do Archtrends Summit, a Portobello viveu um daqueles momentos que permanecem na memória institucional para sempre.

Tivemos a honra de receber, na abertura do evento, Paulo Mendes da Rocha, em uma conversa ao lado de sua filha, Nadezhda.

A entrevista foi mais do que um diálogo sobre arquitetura. Foi uma aula pública sobre pensamento, processo e legado. 

Mendes da Rocha revisitou passagens de sua trajetória e falou sobre obras emblemáticas, como a Poltrona Paulistano, explicando que o desenho nasceu do desejo de unir tecnologia e ancestralidade. 

A estrutura em aço, segundo ele, deveria receber uma capa de fibra produzida por povos indígenas, conectando engenharia moderna e saber tradicional.

O relato ganhou contornos ainda mais emocionantes quando contou que essa ideia finalmente ganharia forma em um projeto conduzido por Nadezhda, que na época desenvolvia um trabalho com indígenas Kamayurá, no Alto Xingu. 

O auditório acompanhou em silêncio atento, reconhecendo a potência simbólica daquele gesto.

Ao final, Mendes da Rocha agradeceu à filha e afirmou que ela daria continuidade ao seu legado. 

O reconhecimento público, feito com serenidade e afeto, sintetizou o espírito do encontro: arquitetura como herança viva, construída em diálogo.

As contribuições desse grande nome da arquitetura brasileira elevaram ainda mais o nível do Archtrends Summit e contribuíram para colocar o nosso evento na história.

Paulo Mendes da Rocha nos deixou, mas o seu legado segue vivo e pulsante mundo afora. É uma satisfação fazer parte e contar a história desse verdadeiro ícone brasileiro da arquitetura.

Aproveitando o momento, não deixe de conferir também a trajetória e os projetos de outro nome que enche o nosso país de orgulho: Oscar Niemeyer. Leia agora o artigo sobre o arquiteto que transformou curvas e ideias em marcos da arquitetura moderna. 

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