Autonomia e protagonismo feminino na Bioconstrução — Arquitetura na Periferia %

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Desde 2013, nós, da Arquitetura na Periferia (AnP), temos mostrado que é possível transformar realidades por meio do fortalecimento comunitário, da moradia digna e, principalmente, do protagonismo das mulheres. Em 2023, demos um passo ainda mais ousado ao surgir o AnP BIO, um projeto que une sustentabilidade, saberes ancestrais e a força feminina.

Bioconstrução na periferia? Sim, é possível!

Você já ouviu falar em bioconstrução? Talvez imagine casinhas de barro no interior, mas em uma ocupação urbana, com lotes pequenos, paredes geminadas e pouca ventilação? Pois foi exatamente lá que resolvemos experimentar.

O local escolhido foi o Centro Cultural da Ocupação Paulo Freire, em Belo Horizonte. Durante dois anos (2023-2025), um grupo de mulheres se reuniu para estudar, planejar e executar reformas usando terra, bambu e cal. E não foi pouca coisa não: fizemos forro de bambu, reboco e tinta de terra, piso de terra com cal, um banco de taipa de pilão com acabamento em tadelakt (sim, aquela técnica marroquina linda!) e até um telhado verde.

O projeto foi dividido em três etapas:

  • Aulas teóricas – para entender que construção com terra não é coisa do passado, mas sim uma tecnologia social e ambientalmente justa.
  • Visitas de campo – fomos à Serra do Cipó, à Escola de Ofícios de Mariana e a uma fábrica de tijolos ecológicos. Tudo para ver que a terra é matéria viva, que exige escuta e técnica.
  • Mutirões abertos – a famosa “mão na massa”, onde vizinhas e voluntárias se juntavam para executar as intervenções.
Forro, fachada, piso e símbolos de resistência

No primeiro ano, o grupo começou pelo forro de bambu na sala principal, deixando o ambiente mais aconchegante e natural. Em seguida, veio o reboco de terra na fachada. Também houve a pintura com tinta de terra em paredes internas e externas.

Para dar um toque ancestral, o grupo de mulheres pintou os símbolos de Adinkras da África Ocidental. O grupo escolheu o AYA, que representa resistência e autonomia, e o fixou na fachada principal. Também pintaram outros símbolos com tinta de tabatinga. E, por fim, o banco de taipa de pilão com acabamento em tadelakt que foi integrado ao quintal.

O piso do centro cultural estava destruído, muito úmido, descascado, desconfortável. Era hora de encarar o desafio mais técnico do projeto. As mulheres testaram diferentes traços, enfrentaram a chuva, refizeram camadas e, depois de muito estudo e esforço, executaram um piso de terra e cal resistente e impermeável. Foram meses de dedicação, com direito a três demãos de silicone hidrofugante no final.

E olha, o piso ficou lindo, funcional e todo mundo aprendeu que terra bem cuidada é sinônimo de qualidade.

2025: o telhado verde que veio da necessidade

No fim de 2024, fortes chuvas derrubaram o telhado da área externa do centro cultural, e parte do que foi feito nos anos anteriores também foi danificada.

Mas, como diz o ditado, “a necessidade aguça o engenho”.

Antes de tomar forma, as mulheres fizeram dois exercícios incríveis: desenharam as camadas do telhado em papel manteiga (sobrepondo uma à outra) e construíram uma maquete em escala para testar a drenagem. Com o conhecimento testado, foi hora de ir para a prática.

O grupo construiu um telhado verde com estrutura de eucalipto tratado, camadas de drenagem, geomembrana, substrato e, no final, mudas plantadas por elas mesmas. Foi uma interação incrível entre as mulheres e sensação positiva sobre a importância de um telhado como este no meio urbano.

O maior desafio: vencer o preconceito com a terra

Durante as rodas de conversa, muitas participantes relataram algo profundo: quando crianças, moravam em casas de barro e sentiam vergonha. “Agora que conquistamos nossa casa de cimento, pra quê voltar para a terra?”

Esse é um estigma real. A construção convencional vendeu a ideia de que cimento é progresso e terra é pobreza. Mas o AnP BIO mostrou o contrário, que terra é nobre, é confortável, é sustentável e pode ser linda.

Uma participante, que antes sentia vergonha, hoje aplica reboco e tinta de terra na própria casa. Outras saíram coletando terra perto de suas moradias e fizeram testes nos seus muros. O orgulho substituiu a vergonha.

Para além do centro cultural: a terra chegou nos lares

O maior legado do AnP BIO não foi só a reforma do Centro Cultural da Paulo Freire  que já é gigante. Foi ver as mulheres levando a bioconstrução para dentro de suas próprias casas. Com as mãos sujas de terra, mas com o coração cheio de potência, elas perceberam que podem:

  • Revitalizar fachadas sem gastar rios de dinheiro;
  • Melhorar o conforto térmico e acústico;
  • Pintar paredes com pigmentos naturais;
  • E, principalmente, ser protagonistas da transformação do seu território.

Cada teste de traço, cada camada de reboco, cada folha de bambu tratada foi um passo rumo a uma construção mais afetuosa, mais coletiva e mais livre.

A terra quer, a terra dá

Como diz o pensamento de Antônio Bispo, “a terra dá, a terra quer”. E o que ela pede? Respeito, escuta, cuidado. Foi isso que o AnP BIO fez, devolveu à terra seu lugar de matéria viva, e às mulheres seu lugar de construtoras, artistas e engenheiras do seu próprio habitat.

O Centro Cultural da Ocupação Paulo Freire virou um laboratório vivo, uma escola aberta e um símbolo do que é possível quando mulheres se unem, aprendem e constroem juntas.

E você, tem vontade de colocar a mão na terra? Fica de olho nos próximos mutirões da Arquitetura na Periferia. O barro espera por você.

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