a obra de Francis Kéré

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Biblioteca dos Saberes é o projeto que trouxe ao Brasil, no fim de 2025, o arquiteto Francis Kéré, vencedor do Prêmio Pritzker de 2022. A proposta foi apresentada oficialmente no Rio de Janeiro como um dos principais projetos culturais previstos para a região central da cidade.

Implantada na Cidade Nova, no entorno do Terreirão do Samba e próxima ao monumento a Zumbi dos Palmares, a obra integra o movimento de revitalização urbana do centro carioca e se conecta diretamente às iniciativas da Pequena África.

Embora as obras físicas ainda não tenham começado oficialmente, os detalhes já divulgados revelam uma proposta que vai além de uma biblioteca tradicional.

O edifício reunirá espaços de leitura, convivência, exposições e áreas públicas abertas, em uma arquitetura inspirada na ancestralidade afro-brasileira e na relação com o entorno urbano.

Mais do que um espaço cultural, a Biblioteca dos Saberes foi concebida como um lugar de memória, encontros e aprendizado, valorizando saberes ancestrais, práticas coletivas e vivências populares.

Entenda o projeto a seguir.

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Uma biblioteca que nasce do território

A Biblioteca dos Saberes pode ser entendida como um gesto urbano e cultural que reposiciona o centro do Rio de Janeiro como lugar de memória viva e produção de conhecimento. 

Apresentada pelo arquiteto Francis Kéré, a proposta integra o conjunto de ações de revitalização da região da Cidade Nova e dialoga diretamente com o entorno do Terreirão do Samba, o monumento a Zumbi dos Palmares, o Cais do Valongo e as iniciativas da Pequena África.

Com cerca de 40 mil metros quadrados, o complexo cultural foi encomendado pela Prefeitura do Rio de Janeiro e apresentado à comunidade no dia 20 de novembro, data simbólica, marcada pelo Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra. Desde o início, o projeto assume o compromisso de reconhecer o território como fonte de saber, identidade e pertencimento.

Arquitetura como encontro e escuta

Desenvolvida pelo escritório Kéré Architecture, com autoria de Francis Kéré, Mariona Maeso Deitg e Juan Carlos Zapata, a Biblioteca dos Saberes propõe uma arquitetura aberta, permeável e conectada ao espaço público. 

O conjunto articula edifícios, pátios, áreas externas e percursos que estimulam a circulação livre de moradores e visitantes.

Pilotis, brises, cobogós e fachadas perfuradas cumprem dupla função: filtram a luz intensa do Rio de Janeiro e favorecem a ventilação cruzada, criando conforto ambiental sem recorrer a soluções artificiais excessivas. 

Jardins suspensos, terraços ajardinados e áreas a céu aberto reforçam a relação com o clima, a paisagem e o cotidiano urbano.

A materialidade em tons terrosos aproxima o edifício do chão e da história do lugar, estabelecendo continuidade visual e simbólica com o entorno. 

Monumentalidade e leveza convivem de forma equilibrada, marca recorrente na obra de Kéré.

A árvore do conhecimento no centro da obra

No coração da Biblioteca dos Saberes está a chamada “árvore do conhecimento”, uma torre cilíndrica de quatro pavimentos, aberta no topo para receber luz natural. 

Inspirada nas árvores nativas da Floresta da Tijuca e no papel simbólico que as árvores desempenham como pontos de encontro na cidade de Gando, em Burkina Faso, local de nascimento de Kéré, essa estrutura organiza espacial e conceitualmente o edifício.

A torre conecta três níveis da biblioteca e funciona como eixo de circulação, iluminação e convivência. 

Assim como em comunidades africanas, nas quais a sombra da árvore é espaço de diálogo, ensino e tomada de decisões coletivas, a árvore do conhecimento assume o papel de centro cívico e cultural do projeto.

Do silêncio ao movimento: usos e programas

O programa arquitetônico da Biblioteca dos Saberes segue uma lógica de transição gradual entre silêncio e atividade. 

Salas de leitura e acervo convivem com espaços de oficinas, áreas expositivas, salas de estudo, cozinhas, auditório, teatro, café e um anfiteatro coberto.

Essa progressão reflete uma compreensão ampliada de conhecimento, que inclui leitura, escuta, troca, performance, criação, alimentação e brincadeira. 

A biblioteca deixa de ser apenas um lugar de consulta e passa a funcionar como plataforma cultural e educativa, capaz de acolher diferentes ritmos, idades e formas de aprendizado.

Além disso, áreas externas sombreadas e pátios internos ampliam as possibilidades de uso comunitário, conectando atividades formais e informais ao longo do dia.

Pequena África, samba e saberes ancestrais

Implantada em um território marcado por camadas históricas profundas, a Biblioteca dos Saberes dialoga diretamente com a antiga Praça Onze, berço da primeira escola de samba do Brasil, e com o Sambódromo projetado por Oscar Niemeyer. 

A obra reconhece o samba como forma de conhecimento, transmissão oral e organização social.

A proposta também celebra as heranças indígena e afro-brasileira, valorizando tradições orais, práticas coletivas e memórias muitas vezes excluídas das narrativas oficiais. 

Ao reimaginar o Atlântico não como fronteira, mas como um rio de circulação cultural, o projeto estabelece pontes simbólicas entre Brasil e África, passado e presente.

Um equipamento cultural para a cidade

Além de sua dimensão arquitetônica, a Biblioteca dos Saberes se consolida como um dos principais legados da agenda Rio Capital Mundial do Livro, título concedido pela UNESCO à cidade. 

O equipamento funcionará como núcleo articulador de uma rede de bibliotecas públicas e comunitárias, ampliando o acesso ao conhecimento e fortalecendo iniciativas já existentes.

A passarela para pedestres que conecta o edifício ao monumento a Zumbi dos Palmares reforça essa ideia de continuidade urbana, incentivando a circulação e o uso cotidiano do espaço. 

Inserida no projeto maior da Praça Onze Maravilha, a biblioteca é parte de uma estratégia mais ampla de requalificação do centro do Rio, inspirada em experiências anteriores como o Porto Maravilha.

Funcionamento, acesso e previsão

A Biblioteca dos Saberes foi pensada como um espaço público, gratuito e aberto à cidade, com acesso facilitado para moradores, estudantes, pesquisadores e visitantes. 

O funcionamento deverá contemplar atividades educativas, culturais e comunitárias ao longo do ano, integrando programação fixa e eventos temporários.

Até o momento, a Prefeitura do Rio de Janeiro e o escritório de Kéré não divulgaram uma data oficial de início das obras nem de inauguração do complexo.

Gando Library e a continuidade de um pensamento

A Biblioteca dos Saberes dialoga diretamente com outro projeto emblemático de Francis Kéré: o Gando Primary School Library, em Burkina Faso. 

Assim como naquela obra, a arquitetura nasce do clima, da cultura local e da participação comunitária, reafirmando a biblioteca como espaço de encontro e construção coletiva do saber.

No Rio de Janeiro, essa abordagem ganha nova escala e complexidade, sem perder o vínculo com a ideia que atravessa toda a trajetória de Kéré: arquitetura como ferramenta de escuta, inclusão e transformação social.

A Biblioteca dos Saberes é uma obra que une arquitetura e literatura. Para quem se interessa por essa relação, recomendamos também a leitura do nosso artigo sobre a Rota Machado de Assis, que mostra os prédios que contam a vida e a obra do autor. 

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